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“Viam que sua dor era muito grande”

Novembro 2015 | ODN |

Reflexão sobre os atentados em Paris, reivindicados pelo estado islâmico.

 “Os amigos de Jó sentaram-se com ele no chão
por sete dias e sete noites,
e nenhum deles lhe dizia uma palavra,
porque viam que sua dor era muito grande"
Jó 2,13

Este texto bíblico expressa muito bem nossos sentimentos ao saber das notícias dos atentados desta sexta-feira, 13 de novembro em Paris, reivindicados pelo estado islâmico. Diante de tanta dor, só nos resta o silêncio e a certeza de que o bem é mais forte do que as forças do mal.

Sem dúvida alguma, o sofrimento e o sangue de tantos inocentes em Paris e em diversas partes do mundo, causadas por atores diferentes, nos convocam a trabalhar incansavelmente pela defesa da dignidade humana, que é a base para que outros valores como a liberdade, a justiça, a solidariedade, a compaixão, sejam uma realidade em nosso mundo.

É necessário não esmorecer no empenho de oferecer em nível familiar e institucional uma educação que desenvolva a consciência crítica, que ajude as novas gerações a não caírem no fanatismo nem em pensamentos fechados; uma educação que dê elementos para discernir e escolher o que é, de fato, humano. Também uma educação dos sentimentos, que forme pessoas “sentipensantes”, aptas para reconhecer, no rosto do outro, uma pessoa igual a mim em dignidade e direitos, também frágil e vulnerável, que só pode chegar à sua plenitude humana na medida em que estabelecer relações de convivência e de fraternidade.

Tomar consciência, de que o mundo se transforma e se move por gestos e ações de bondade e solidariedade, de serviço e doação em gratuidade, como no-lo ensinou Jesus de Nazaré, o menino perseguido de Belém, o homem que “passou fazendo o bem”, o crucificado-ressuscitado, é hoje uma urgência.

Com o desejo de compartilhar elementos que nos ajudem a compreender este momento histórico complexo e a procurar caminhos de humanização em nosso mundo, remetemos ao artigo “Um enigma humano: a violência pela violência do estado islâmico” de Leonardo Boff que se encontra na Página de Leonardo en Koinonia.

Um enigma humano: a violência pela violência do Estado Islâmico
27-10-2015

O Estado Islâmico da Síria e do Irak é talvez um dos acontecimentos políticos mais misteriosos e sinistros dos últimos séculos. Na história do Brasil, como nos relata o investigador Evaristo E. de Miranda (Quando o Amazonas corria para o Pacífico, Vozes 2007) tivemos genocídios incontáveis, «talvez um dos primeiros e maiores genocídios da história da Amazônia e da América do Sul» (p. 53): uma tribo antropófaga devorou todos os primeiros habitantes do litoral, chamados sambaqueiros, que viviam na costa atlântica do Brasil.

Com o Estado Islâmico está ocorrendo algo semelhante. É um movimento fundamentalista, surgido de várias tendências terroristas. No dia 29 de junho de 2014 proclamou um califado, tentando remontar-se aos inícios da aparição do Islamismo com Maomé. O Estado Islâmico reivindica autoridade religiosa sobre os muçulmanos do mundo inteiro para assim criar um mundo islâmico unificado que siga a charia (leis islâmicas) ao pé da letra.

Não é aqui o lugar para detalhar a complexa formação do califado; vamos restringir-nos apenas ao que nos deixa confusos, perplexos e escandalizados por usar a violência pela violência como marca identitária. Dentre os muitos estudos sobre este fenômeno, cabe destacar o dos italianos que viveram de perto esta violência: Domenico Quirico (Il grande Califfato 2015) y Mauricio Molinari (Il Califfato del terrore, Rizzoli 2015).

Quirico narra que se trata de uma organização exclusivamente masculina, composta por pessoas, em geral, entre 15 e 30 anos. Ao aderirem ao Califado apagam todo o seu passado e assumem uma nova identidade: a de levar adiante a causa islâmica até a morte, dada ou recebida. A vida pessoal e a dos outros não têm nenhum valor. Traçam uma linha rígida entre os puros (sua tendência radical islâmica) e os impuros (todas as outras pessoas, também de outras religiões, como os cristãos, especialmente os armênios). Torturam, mutilam e matam sem nenhum escrúpulo. Ou você se converte ou more, normalmente degolado. Os combatentes sequestram e trocam entre si as mulheres, que são usadas como escravas sexuais. O assassinato é louvado como «um ato em prol da purificação do mundo».

Molinari conta que os jovens, iniciados mediante um vídeo sobre as decapitações, pedem logo para serem decapitadores. Muitos jovens são recrutados nas periferias das cidades europeias. E não só pobres, mas até um letrado de Londres com boa situação financeira, e outros do mundo árabe. Parece que a sede de sangue reclama mais sangue e a morte fria e banal de crianças, pessoas idosas e de todos os que duvidam em aderir ao Islamismo.

Eles se financiam com o sequestro de todos os bens das cidades conquistadas da Síria e do Iraque, muito especialmente com o petróleo e o gás dos poços arrebatados, que lhes proporciona, segundo os analistas, um ganho de quase três milhões de dólares diários, ao ser vendido geralmente a preços muito mais baixos nos mercados da Turquia.

O Estado Islâmico rechaça qualquer diálogo e negociação. O caminho só tem uma via: a violência de matar ou de morrer.

É um fato inquietante, pois coloca a seguinte questão: O que é o ser humano e de quê ele é capaz. Parece que todas as nossas utopias e sonhos de bondade se anulam. Perguntamos em vão aos teóricos da agressividade humana, como Freud, Lorenz, Girard. Suas explicações não nos satisfazem.

Para Freud, a agressividade é expressão do dramatismo da vida humana, cujo motor é a luta sem fim entre o princípio de vida (eros) e o princípio de morte (thánatos). A tensão se descarrega com a finalidade de autorrealização ou de proteção. Segundo Freud, é impossível para os humanos controlar totalmente o princípio de morte. Por isso, sempre haverá violência na sociedade. Mas mediante leis, a educação, a religião e, de maneira geral, mediante a cultura, pode-se diminuir sua virulência e controlar seus efeitos perversos (cf. Para além do princípio
do prazer, Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976).

Para Konrad Lorenz (1903-1989), a agressividade é um instinto como os outros, destinado a proteger a vida. Mas ganhou autonomia, porque a razão construiu a arma mediante a qual a pessoa ou grupo potencia sua força e assim pode impor-se aos outros. Criou-se uma lógica própria da violência. A solução é encontrar substitutivos: voltar à razão dialogante, aos substitutivos, como o esporte, a democracia, o autodomínio crítico do próprio entusiasmo que leva à cegueira e, daí, à eliminação dos outros. Mas tais expedientes não valem para os membros do Califado. No entanto, Lorenz reconhece que a violência mortífera só desaparecerá quando for concedido aos seres humanos, por outro caminho, o que procuravam conseguir por meio da força bruta (cf. Das sogenannte Böse: Zur Naturgeschichte der Aggression, Viena 1964).

René Girard, com seu “desejo mimético negativo”, que leva à violência e à identificação permanente de “bodes expiatórios”, pode transformar-se em “desejo mimético positivo” quando, em vez de invejar e apoderar-se do objeto do outro, decidimos compartilhá-lo e desfrutá-lo juntos. Mas, para ele, a violência na história é tão predominante que lhe evoca um mistério insondável que não sabe como decifrar. E nós tampouco.

Na história há tragédias, como bem viram os gregos em seus teatros. Nem tudo é compreensível mediante a razão. Quando o mistério é demasiado grande, é melhor calar e olhar para o Alto, de onde talvez nos venha alguma luz.